Má-formação ou malformação?

má-formaçãoPensei em escrever algo aqui sobre a polêmica (ou a dúvida) acerca da forma gramaticalmente correta para a expressão MÁ-FORMAÇÃO ou MALFORMAÇÃO. Entretanto, encontrei uma postagem tão bem elaborada, que decidi reproduzi-la aqui para quem quiser analisar com mais detalhes as opiniões.

De minha parte, desde já adianto, há preferência pela grafia má-formação.

Vale a pena conferir o texto abaixo, originalmente escrito pelo blogueiro Davi Miranda, do blog Discórdia Gramatical.

A má-formação de “malformação”

Encontrei algo que considero ortograficamente inusitado — dentre tantos inusitados ortográficos. Ontem de manhã, o professor Laércio, em seu site Português na Rede, postou um texto em que admite a preferência pela forma má-formação.

Concordo com ele. Coincidentemente, horas depois, durante a revisão de um livro da área de Medicina, encontrei a palavra ‘malformação’. Imediatamente, troquei-a por ‘má-formação’, forma hifenada prevista pelo VOLP e registrada em dicionários. No entanto, como a minha curiosidade é maior do que qualquer certeza que eu possa ter, resolvi consultar VOLP, Houaiss e Aurélio… Eis que, para minha surpresa, aparece registrado no Houaiss:

malformação Datação: sXX

n substantivo feminino

1 defeito na forma ou na formação; anomalia, aberração, deformação

1.1 Rubrica: patologia.

vício de conformação de uma parte do corpo, de origem congênita ou hereditária, ger. curável por cirurgia [Distingue-se da deformação (adquirida) e da monstruosidade (incurável).]

E no Aurélio:

malformação [Do fr. malformation.]

Substantivo feminino.

1.V. má-formação.

E no VOLP: ‘malformação s.f.’

As três publicações também registram ‘má-formação’.

Ora, conforme já observamos no supracitado artigo do professor Laércio, se o termo que vem logo após mal/má é um verbo/particípio, deveríamos usar o advérbio ‘mal’; caso o segundo elemento seja um substantivo, deveríamos grafar com o adjetivo ‘mau/má’. Logo, seguindo esse raciocínio, só poderíamos admitir como correta a grafia ‘má-formação’. Certo? Errado.

O problema é que, como se não bastasse, além de malformação, o VOLP também registramalcriação. Podem conferir.

Também estão registradas no Vocabulário as formas ‘má-formação’ e ‘má-criação’ (que os dicionários dão como sinônimos de ‘malformação’ e ‘malcriação’, respectivamente).

Qual o porquê dessa duplicidade? Há pistas nas próprias obras. O Aurélio apenas acusa a origem francesa de ‘malformação’ (malformation); já o Grande Dicionário Houaiss (2001, a melhor versão do Houaiss já publicada até hoje) comenta que “depreendido de malformado, supõe-se um verbo malformar, do qual haveria o derivado malformar + -ção; caso não se admita esse padrão derivacional, malformação estaria por má-formação” (p. 1821, grifos do autor).

Como o Houaiss sugeriu uma hipótese morfológica para explicar essa estranha forma, daí para cogitarmos uma consulta ao Dicionário Etimológico de Antônio Geraldo da Cunha foi só um pulo. Lá, o autor faz uma interessante observação:

malformação s.f. ‘(Med.) qualquer deformidade ou anomalia geralmente congênita’ séc. XX. Do francês malformation. Ocorre também no português ‘má-formação’, que, inclusive, está mais de acordo com os princípios lexicológicos que regem a formação de vocábulos compostos como este (p. 402, grifo nosso).

O uso realmente oscila entre uma forma e outra. Conforme constata Maria Helena de Moura Neves em seu Guia de Uso do Português, ‘má-formação’ e ‘malformação’ “são formas variantes, igualmente usuais (cerca de 50%, cada uma)” (p. 491). Quanto a má-criação e malcriação,

[…] são formas variantes. A forma malcriação (ausente dos dicionários mais recentes, e de formação semelhante à malfeitoria) tem sido condenada, considerando-se que malcomo advérbio, não poderia modificar o substantivo criação. As duas formas são usadas com frequência aproximada (p. 489, grifos da autora).

Do ponto de vista prescritivo, é Domingos Cegalla o primeiro autor (por mim encontrado) a insurgir-se contra essa má-formação de ‘malformação’, prescrevendo o seguinte em seuDicionário de Dificuldades (2010):

Má-formação, forma vernácula, deve ser preferida a malformação, cópia do francês malformation. Em português, mal, como advérbio, se usa com adjetivos e verbos: malcriado, mal-educado, malquerer, maldizer, etc. Antes de substantivos, emprega-se mau ou : má-criação, má-formação, má-oclusão, mau-caráter, etc (p. 251).

Fazendo coro com Cegalla, Napoleão Mendes de Almeida, embora não cite ‘malformação’ em seu Dicionário de Questões Vernáculas (1981), dedicou um verbete à palavra ‘má-criação’:

A palavra é má-criação, que poderia escrever-se sem hífen se não fosse o Formulário Ortográfico […] E assim: má-adaptação, má-fé, porque a substantivo deve preceder a forma adjetiva, e não a adverbial. Mal, com l, emprega-se quando precede adjetivo ou forma verbal: malcriado, mal-humorado, mal-agradecido, maldizente […]. Temos maldição, malfeitor, mas aqui não houve composição dentro do idioma, senão apócope do primeiro elemento de maledictionem, malefactorem (p. 179, grifo nosso).

Curiosamente, Celso Luft diverge de modo muito sagaz: em seu ABC da Língua Culta (2010), defende as formas ‘malformação’ e ‘malcriação’ (condenadas por Cegalla e Napoleão).

Sobre ‘malcriação’, diz o gramático gaúcho:

Derivado normal de malcriado; plural malcriações. | A outra forma, reclamada (como a “correta”) pelos puristas, má-criação, plural “más-criações” (!), não passa de artificialidade logicista: para uma base substantiva (-criação) um anexo adjetivo (má-). Ora, ora, o que está em jogo não é ‘criação que seja má’ e sim ‘qualidade ou ato de malcriado’. Duas outras derivações, também populares, comprovam isso: malcriadez e malcriadice, e não *má-criadez, *má-criadice (embora o Volp 2009[1] tenha registrada essa forma; pode até existir, como ultracorreção[2] de [mawkria’disi] = mau criadice > (concordância) má criadice > má-criadice; isto explicaria também mácriação > má-criação como efeito de ultracorreção) (p. 268, grifos do autor)

Sobre ‘malformação’, diz:

vale o dito em malcriação: assim como malcriado + -ção > malcriação, assim malformado + -ção > malformação, se não se trata de empréstimo do francês “malformation”; mas como o uso sincrônico envolve constante reanálise, recriação da palavra: ‘caráter de malformado’ (deformado, anômalo) > malformação. Má-formação, a implicar o plural más-formações (!), talvez resulte de ultracorreção: [mawforma’sãω] = mau formação > (concord.) má formação > má-formação (p. 269, grifos do autor).

Discórdia: Luft estranha o plural formado a partir das formas hifenadas com adjetivo (‘más-criações’, ‘más-formações’) e parece não dar a mínima importância para a palavra francesa a partir da qual surgiu a forma em português (malformation), considerando não a lógica da regularização ortográfica, mas apenas a derivação originada — dentro do próprio vernáculo — a partir dos adjetivos ‘malformado’ e ‘malcriado’ (qualidade/ato/caráter de ‘malformado’/’malcriado’). Esse raciocínio, vale observar, concilia-se com o que vimos na citação do Houaiss (2001), alguns parágrafos atrás (repito: “depreendido de malformado, supõe-se um verbo malformar, do qual haveria o derivado malformar + -ção; caso não se admita esse padrão derivacional, malformação estaria por má-formação“). O que o dicionarista apenas hipotetiza[3] e sugere, o gramático ratifica.

A meu ver, a argumentação de Luft parece honesta e talvez tenha sua razão de ser; todavia, alinho-me com o pensamento do dicionarista Antonio Geraldo da Cunha: ‘má-formação’ está mais de acordo com os princípios lexicológicos que regem a formação de vocábulos compostos do que ‘malformação’.

Gostaria mesmo era de saber o que teria a dizer Said Ali a respeito dessa malformação. Para refletir, um pertinente trecho de sua Gramática Histórica da Língua Portuguesa:

Quando se estuda o fenômeno da composição dentro do domínio de certo idioma, deve-se atender principalmente ao que esse idioma tem produzido com seus próprios recursos.Não servem de prova para os fatos palavras compostas preexistentes à formação do dito idioma, ou importadas de outra língua, dando a impressão de palavras simples. Pela criação do vocábulo VINAGRE, fr. VINAIGRE, it. VINAGRO não é responsável a língua portuguesa, e este exemplo não atestaria a possibilidade de formarmos um vocábulo novo, combinando um substantivo com um adjetivo (p. 260, grifo nosso).

O assunto é digno de uma pesquisa mais exaustiva, mas são 3 h da manhã e eu ainda tenho 100 laudas pra revisar. Além disso, acho que careço de critérios morfológicos fundamentados para ir além. Agradeço a todas as opiniões que puderem ser compartilhadas aqui conosco (e, quem sabe, anexadas a este texto).

Terrível, não? Não me conformo com essa (suposta?) má-formação da palavra malformação. E de quebra, por ironia do destino, ainda sou tachado pelo Luft de purista. Tsc.

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[1] Tendo Luft falecido em 1995, fica claro que esse trecho não é de sua autoria.

[2] De acordo com Houaiss (2009), ultracorreção é definida como o “fenômeno que se produz quando o falante estranha, e interpreta como incorreta, uma forma correta da língua e, em consequência, acaba trocando-a por uma outra forma que ele considera culta; nessa busca excessiva de correção (seja na fonética: mantor por mantô, seja na acentuação: rúbrica por rubrica, seja na escolha do vocabulário: genitora por mãe), nota-se em geral o temor do falante de revelar uma classe de origem socialmente discriminada; hipercorreção, hiperurbanismo”

[3] derivação do substantivo ‘hipótese’ não registrada em dicionários nem no VOLP.

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