Machado na cabeça dos tolos

Os fundamentalistas do politicamente correto desconhecem freios e não param de me surpreender – tragicamente, ressalto. 

Vi, recentemente, uma entrevista da escritora Marisa Lajolo, ensaísta e especialista em Monteiro Lobato, em que ela, creiam, protesta contra a nova empreitada da turma: cobrar de Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, seu desrespeito aos portadores de “necessidades especiais”. 

O motivo: em Memórias Póstumas de Brás Cuba, para mim e para tantos o mais expressivo romance do Bruxo do Cosme Velho, ele teria se manifestado de forma preconceituosa em relação à namorada coxa do “herói” cínico e já livre das amarras da conveniência.

Queimaremos o livro, então, ou jogaremos no lixo da literatura mundial a obra do “negro que ignorava a própria negritude”?

Há um inegável ranço de parcela significativa da intelectualidade engajada contra Joaquim Maria Machado de Assis. Ele teria desdenhado das questões sociais do seu tempo, era “inglês demais” em seu estilo rebuscado e ao mesmo tempo coloquial, preocupando-se apenas e tão somente em mergulhar na alma humana.

O escritor gago e epilético era um pessimista, isso sim. Quem não o seria ao chegar tão perto da essência humana?

Doutora Nise da Silveira, a pequenina que se agigantou aos olhos de Graciliano Ramos e nos embates por uma psiquiatria não punitiva, que desse àquela gente despejada nos sanatórios desumanos alguma razão de viver, e com alegria, já havia dito que aprendera mais sobre psicologia lendo Machado do que nos compêndios da disciplina.

Pode-se apontar um erro grave no nosso “personagem”: a criação da Academia Brasileira de Letras, na qual se aboletaram poderosos escrevinhadores – também – miúdos de obra, corpo e caráter. O que o torna mais humano.

Machado não gostava de Eça de Queirós. Também não era admirado por Graciliano Ramos. Prefiro os três, cada um a seu tempo, no tempo em que já dura a minha vivência de leitor.

Não dá para descartar, simplesmente, os “olhos de ressaca” de Capitu, o ciúme doentio (há outro?) de Bentinho e a eterna dúvida da traição que teria sido perpetrada por Escobar (Dom Casmurro). Muito menos a loucura de Simão Bacamarte, que veio a morrer solitário (O alienista), depois de encontrar patologias mentais em todos os tipos e personalidades. Loucos? Haveremos de ser todos, cada um ao seu modo (Caetano disse, um século depois, que “de perto ninguém é normal”).

Eu fico, prazerosamente, com a fina sensualidade das mulheres que protagonizam suas páginas em “Missa do Galo” e “Uns braços”, ou com a delicadeza e a altivez de Camila (nome de minha filha), no docemente sedutor “Senhora”, um conto que quase sei de cor.

Releio as criações do bruxo com alguma frequência, às vezes só para me deliciar com seu estilo elegante, de refinado provocador, a nos revelar o que guardamos dentro de nós, ainda que queiramos represar nossa estupidez.

Machado não deixou descendência. Fez de sua sobrinha-neta Laura a herdeira do que construiu – de bens materiais foram poucos, nenhum imóvel; incalculável é o valor dos seus escritos.

À posteridade, brindou com a sarcástica declaração final de Brás Cubas:

– Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Se houvesse decidido contrariamente às suas crenças sobre o que somos, talvez restasse uma voz iracunda, sangue do seu sangue, a bradar:

– Machado na cabeça dos tolos.

Estes passarão; Machado, passarinho.

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Ricardo Mota (jornalista e cronista alagoano) – texto originalmente publicado em seu blog http://blog.tnh1.ne10.uol.com.br/ricardomota, em 02/06/13.

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