Alagoas, arlequins e pierrôs!

 Do norte ao sul do país, mais uma vez entra em cena a grande expectativa gerada em torno do período carnavalesco. Para alguns, dias seguidos de comemorações, danças, fantasias e bebedeiras; para outros, uma excelente oportunidade de descanso, em meio ao já estressante início de ano.

Durante esse tempo, há estados que se destacam quer pela imponência de seus festejos e luxo de suas alegorias, quer pela exorbitante multidão que se aglomera nas ruas e avenidas, como acontece, principalmente, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco. As outras unidades federativas, embora sem tanto destaque, também vivem essa áurea pitoresca revestida de confete e serpentina. Nesse contexto, no entanto, Alagoas prefigura uma história ímpar: na terra de Tavares Bastos, Graciliano Ramos e Ib Gato Falcão, o carnaval não se restringe a quatro ou cinco dias, estende-se durante todo o ano.

De modo geral, anualmente, uma nova data se estabelece para o período carnavalesco. Isso acontece por ser essa data regida por aspectos astronômicos. A terça-feira de carnaval, por exemplo, ocorre sempre 47 dias antes da Páscoa que, por sua vez, acontece no primeiro domingo após a lua cheia eclesiástica. Essa lua cheia acontece sempre no ou após o dia 21 de março (chamado equinócio da primavera europeia, outono para nós do hemisfério sul). Por essa razão, não há uma data fixa para a festa de Zé Pereira.

Em Alagoas, porém, pouco tem importado todo esse cálculo para estabelecer as datas precisas para o carnaval. Figuras antigas e comuns à festividade – arlequins, palhaços, pierrôs, colombinas – sempre ganham vida nos quatro dias oficiais de folia; isso no restante do Brasil e do mundo, porque, nas Alagoas, muitos deles estão bem vivos durante os 365 dias do ano, ou 366, nos bissextos.

O Arlequim é um personagem advindo da antiga comédia italiana, de traje multicolor (feito em geral de losangos), que tinha a função de divertir o público, nos intervalos, com suas peripécias. Na verdade, o Arlequim revela-se um farsante inveterado, indivíduo de índole geralmente irresponsável e dotado de um cinismo peculiar àqueles que se acostumaram a se esconder por trás das máscaras. Os estudiosos afirmam, ainda, que esse personagem descende de um ainda mais primitivo, que remonta à Idade Média francesa –Mesnie Hellequin –, um demônio responsável por fortes intempéries nas trocas das estações do ano.

Já o Pierrô, também originário das antigas comédias italianas, apresenta-se como um personagem bem mais ingênuo e sentimental, cuja indumentária é ornada de pompons e de grande gola franzida. Entre eles, encontra-se a Colombina, figura feminina das comédias, alvo da paixão do sentimental Pierrô e amante do conturbado Arlequim.

Nos tradicionais e cada vez mais raros bailes de carnaval, essas conhecidas figuras alimentam a fantasia de velhas recordações; sempre vivas na memória cultural, revestem a nostalgia de quem não esquece a ingenuidade e a inocência de outras épocas. Para as novas gerações, Arlequim, Pierrô e Colombina já não têm mais vida; dificilmente se encontra alguém de pouca idade com fantasias que lembrem esses personagens. Os novos abadás (ou mortalhas), como são conhecidos os trajes carnavalescos contemporâneos, primam muito mais pela praticidade que pela beleza.

Estariam, portanto, fadados ao desaparecimento esses ícones da história dos carnavais? Se depender da juventude de hoje, parece que sim. No entanto, os “grandes nomes” da política alagoana lutam para não permitir esse “drástico” fim. Há décadas, eles mesmos se revestem diariamente das corruptas indumentárias do poder para transformar cargos públicos e, a princípio, temporários em cenário de perpetuação de improbidades. Há vários anos, palácios executivos, casas legislativas e até algumas judiciárias vêm sendo comandados por verdadeiros arlequins travestidos de pierrôs, gente da pior índole, com cara de anjo, que perpetua um carnaval sem fim nas contas públicas do estado.

A cada semana, um novo escândalo, um novo arlequim desponta, valendo-se da irresponsável impunidade que paira sobre as terras de Deodoro e Floriano. E de quem é a culpa por esse interminável e altamente nocivo “carnaval alagoano”? De todos e de cada um em particular. Toda essa bandalheira é fruto tanto da ação dos maus, quanto da omissão dos bons. Que Alagoas também tenha direito à sua quarta-feira de cinzas, e logo!

Prof. Eduardo Sampaio

7 thoughts on “Alagoas, arlequins e pierrôs!

  1. Elizabete Tavares disse:

    Li alguns textos seus, este é o melhor!!

    Poderia dizer, um texto Rico.
    Rico em detalhes, coerência etc.

  2. Edvania disse:

    Boa tarde!

    Belo texto. É muito bom fazer uma leitura com tanta riqueza e profundidade.
    obrigada por nos possiibilitar refletir sobre nossa consciência política e ética nos dias hodiernos.

  3. Cleusa Parise disse:

    Eu sou professora da rede estadual de ensino, especificamente da sala de leitura da minha escola. É de grande importância esse tipo de reportagem. Enriquece-nos bastante saber e passar para nossos alunos. Um abraço e muito obrigada.

  4. Taynara Freire disse:

    Um texto realmente extraordinário, uma crítica muito bem feita a envergonhosa conduta política do nosso estado.Concordo, principalmente, com a parte que diz “Toda essa bandalheira é fruto tanto da ação dos maus, quanto da omissão dos bons.”, pois são inúmeros os que aproveitam descaradamente do dinheiro público para uso pessoal e mesquinho, o que explica muito bem o motivo do nosso estado ser tão atrasado e carente. Entretanto, a omissão dos poucos que ainda se preocupam com o futuro político de Alagoas gera um conformismo insuportável, ajudando assim, a disseminação do ‘tanto faz’ ou ‘pouco importa, são todos corruptos mesmo!’.

  5. Daniel Soares disse:

    o texto esclarece muito bem a realidade do carnaval antes e hoje,o carnaval perdeu o sentido que tinha antigamente, as pessoas se reuniam para festejar aquele momento festivo que tinham com o objetivo de se divertir com suas fantasias e danças. Hoje o carnaval está perdendo seu sentido, pois para muitos é sexo, bebedeira etc. A quarta-feira de cinzas nos lembra que somos pó e ao pó voltaremos,e devemos lembrar que a quaresma é tempo de reconciliação com Deus e de perdão.

  6. Junnyor nunes disse:

    Isso é uma realidade brasileira.

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