009. Nota. Para que serve?

Uma realidade deixa-me bastante preocupado: a exasperada prática da nota escolar. Chega-se até mesmo à excentricidade em sua defesa, ao impulso incontrolável para executá-la, à obsessão. De tanto acioná-la, a escola tornou-se refém de seus caprichos.

Recentemente, atribuí notas a uma atividade de redação no ensino médio. Foi um caos; os resultados, melancólicos. Mais de 75% dos alunos ficaram abaixo da média, não exatamente em seu limite, mas muito aquém do 6,0 (seis). Essa experiência me reporta a tantos outros casos de professores que foram condenados à incompetência, justamente porque deram notas vermelhas à maioria de seus pupilos. Tornaram-se a imagem da ineficiência e tiveram que redirecionar sua avaliação para contemplar os insatisfeitos (os pais entre eles). “Ora, se quase todo mundo tira nota baixa, o culpado só pode ser o professor.” Não era (é) isso que todos diziam (ou dizem)? Avaliava-se o mestre não pela sua sabedoria, mas pelas notas que ele registrava.

No meu caso, as reações ganharam o mesmo perfil, com alunos ensandecidos atrás de explicações nem sempre aceitáveis. Os questionamentos foram duros, a palavra enfurecida derramava seus brados sobre minhas inúteis respostas e justificativas. Não conseguia sequer conversar pausada e educadamente com eles, tamanha a agitação em sala de aula. Uma guerra estava declarada. Eu, certo de que as notas representavam a realidade de aprendizado daquele momento; eles e elas, incrédulos. Não havia acordo, tentavam a todo custo anular as notas. Não recuei, oficializei-as no diário de classe, tive que usar a firmeza de quem já estava “calejado” com tal situação. Ganhei a batalha, mas depois uma série de exposições, falas intermináveis, exemplos no quadro, esclarecimentos. O que interessava a eles não era o conhecimento que poderia ser adquirido a partir dos erros, mas a nota que mostrariam aos seus pais. No entanto, senti-me um vitorioso solitário, pois a insatisfação reinava. Tudo isso por causa de minha apreciação sobre suas produções. Não enxergavam seus erros, os problemas graves de escrita, as incoerências e os níveis sofríveis de linguagem. Era ela, a nota, que ditava as regras. Que explicação dariam a seus pais?

Mas uma outra experiência explica tudo isso. Há pouco tempo, avaliei outras atividades, dei notas (também muito baixas) e não as coloquei na planilha, ou seja, não valiam nada. Foi um espanto o sossego. Não se ouvia reclamação, o descontentamento tinha cessado, não precisei gastar a saliva com infindáveis justificativas. Surgia um caso de amor com as turmas. Vi-me o próprio! Corria em minha face o sorriso dos bondosos de coração e de notas. Nada mais interessava, nem mesmo as redações calamitosas. Agora, era insistir numa política de boa vizinhança que tudo daria certo, inclusive o erro. A aprendizagem foi para o espaço, porque não houve a menor preocupação com o processo.

As duas histórias acima, realmente, aconteceram comigo.

E me pergunto:

É possível saber qual o nível de conhecimento do aluno apenas com o registro do dez, três ou zero? Isso não é mesquinho? A consciência de que a nota é uma consequência e não um fim em si mesmo não deveria vir em primeira instância? Esse sinal gráfico não serviria apenas para massagear o ego dos alunos e dos pais? Não há o reconhecimento de que ela representa uma parte mínima no universo da aprendizagem?

Gostar de estudar, ter imaginação, ver o erro como um degrau de amadurecimento, ser inventivo, ver a escola como um instrumento de transformação pessoal, contribuir para a aula, estar disponível, ser aberto ao diálogo, reconhecer os erros, reagir à preguiça, condenar o mercantilismo das notas (“Professor, é para ponto?”), pesquisar, buscar respostas aos desafios, ter o professor como um aliado (ele tem experiência e é especializado em sua área), criar condições afetivas no trato com o grupo, ficar atento aos exemplos alheios e seguir aqueles que são eficientes e equilibrados (existem colegas da turma e professores que dão provas de solidariedade, respeito, honestidade, gentileza, amizade), assumir responsabilidades, adotar um horário de estudo, ter fé, cuidar da saúde, equilibrar as horas de sono, gostar de música, ir ao teatro, ler, apaixonar-se pela própria história, descobrir talentos individuais, ver na escola uma continuação de sua vida, não adiar os problemas e sim resolvê-los com agilidade para evitar rancores e tristezas, conservar o material didático, cuidar do ambiente escolar, participar dos eventos da instituição de ensino (esportivos, religiosos, culturais e científicos). Tudo isso, eu sei, é bastante subjetivo, mas a sua efetivação não precisa de mirabolantes propostas pedagógicas. São atitudes simples e podem ser criadas a qualquer momento, dão certo em todos os sentidos.

Sei que, às vezes, somos céticos em relação a alguns desses valores, mas o esforço em reconhecê-los já seria um passo importante na construção de uma escola dinâmica e apaixonante.

Se pelo menos a metade disso fosse posta em prática, não ouviríamos mais aquela frase que tanto angustia os educadores: “Pai, não aprendi nada, mas tirei um dez!”.

Osvaldo Epifânio – Especialista em Língua Portuguesa, renomado professor de Redação das redes pública e particular de ensino em Maceió – AL.

3 thoughts on “009. Nota. Para que serve?

  1. Luiz Gava disse:

    Caro Professor,
    Seu relato e comentários são óbvios. Mas permita-me dizer que mostram apenas um lado da moeda. Sou do tempo em que quem não tivesse a nota necessário não era aprovado. E ponto final. Muito se fala em como avaliar, se com nota, com isso ou aquilo. Fato: se com o que for temos que ter coerência. Agora é a nota e deveria haver coerência para não aprovar que não devesse ser aprovado.
    Por outro lado,o senhor precisa reconhecer que se a maioria da classe não está bem com as notas, estão com nota abaixo da média, existe a possibilidade do professor não estar conseguindo ensinar. Afinal, professor é quem ensina, não é quem sabe conheçe a matéria na palma da mão. Conheço vários gênios que não conseguem ensiar. Assim como tive vários professores que não sabiam ensinar. Atualmente, por exemplo, é comum qualquer um que domine determinado assunto, mesmo enquando estudantes universitários, darem aula em escolas, principamente particulares. Mas isto os torna professores? Talvez não professor. Concordo que o ensio atualmente está uma lástima, inclusive nas escolas particulares. Eu sempre estudei em escola pública e sinseramente não há como comparar a qualidade daquela época com a atual, repito, incluindo escolas particulares. Mas isso professor. A mensagem principal é para que os professores também façam uma reflexão se de fato são professores ou expertes em determinado assunto. Ainda que a segunda condição seja pre-requisito para a primeira. Abraços.

  2. Graça Pinheiro disse:

    Professor Osvaldo Epifânio^. Achei seu comentário sobre ” Nota ” excelente. Meus parabéns! Resolvi lhe escrever na tentativa de tirar uma dúvida, caso o senhor possa vir a ajudar-me. Gostaria de saber se existe uma ” Norma ” que permita que uma Prova seja anulada, e que uma outra seja aplicada, caso 75% dos alunos, de uma mesma classe, venham a tirar notas muito baixas, chegando até, em sua maioria, a tirarem notas 1 e 0. A prova em questão foi de Português e foi feita pela minha neta. Ela tem 15 anos e está cursando o 9º ano do fundamental. Ela comentou comigo que uma professora de Matemática, certa vez, falou para ela que um pedido de anulação da prova poderia ser feito pelos alunos, caso 75% das notas fossem abaixo de 5. Eu avaliei a prova, junto com meu filho, que tem um relativo conhecimento de Português, e, realmente, achamos os textos com um estilo bastante rebuscado.Tivemos muita dificuldade de responder a prova, ao ponto dele resolver levar para um professor de um Curso para Concursos, ajudar a respondê-la. Para o senhor ter uma ideia, a aluna que mais se destaca na classe, em termos de notas, tirou a nota 1. A minha neta, escapou, e conseguiu tirar nota 4.A professora que ministrou a prova não deu o gabarito. Os alunos não souberam responder a prova e continuam sem saber. Desculpe lhe incomodar, mas se o senhor puder me responder esse E-mail, lhe serei bastante grata. Um abraço.

    • OSVALDO EPIFANIO DOS SANTOS disse:

      Olá, Graça Pinheiro.
      Primeiramente, agradeço a você pelas palavras elogiosas a respeito do nosso texto.

      Sobre a sua dúvida, se realmente a prova deve ser ou não anulada, quando a maioria não alcança a média determinada pela escola,não há uma regra obrigatória ou mesmo uma legislação única que decida sobre isso.
      A avaliação do rendimento escolar é feita conforme o regimento de cada escola.”Quem determina a forma é, portanto, o estabelecimento de ensino, e o aluno tem que ter conhecimento antes da matrícula.”(Cartilha dos Direitos em Educação, IPEA, 2010).
      Vale o bom senso, nesse caso. O professor, a direção e os alunos podem chegar a um acordo, sem maiores conflitos. Para isso, existem infinitas formas de resolver esse problema: nova avaliação, retomada da prova, novas atividades para somar à avaliação, recondução do conteúdo, estudos comparativos, etc. Depende única e exclusivamente da dinâmica da escola e de como essas questões são tratadas, pedagogicamente.
      Conversar com o professor seria um bom caminho. Acredito que as concessões devem fazer parte do trabalho de todos, não necessariamente a gratuidade. Ceder, portanto, faz parte do jogo. O que importa é o rendimento do aluno e a satisfação do professor, mesmo que para isso alguns sacrifícios sejam feitos e os interesses puramente individuais sejam contidos.

      Abraços.

      Osvaldo Epifanio

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