De bacharel a baixo réu!

Os números do IBGE sobre um balanço geral do século XX revelam que o Brasil transpôs o milênio com mais de 35 milhões de alunos matriculados no ensino fundamental e cerca de 7 milhões no ensino médio; desses, apenas 2 milhões chegam ao patamar superior de escolaridade. Levadas em consideração as estatísticas do começo do século passado, percebe-se um avanço notável nesse quadro.

Percentuais mais imponentes de frequência às salas de aula, no entanto, não parecem representar garantia de avanço qualitativo no cenário educacional brasileiro, conforme as últimas avaliações de diversos órgãos competentes no país e no exterior. Prova disso, o sempre crescente número de alunos nos cursos de Direito das dezenas de instituições (principalmente as privadas) espalhadas pelo país não endossar o desenvolvimento de pesquisas e discussões na área jurídica, por exemplo.

A continuar o desleixo dos órgãos responsáveis pelo direcionamento da educação superior no Brasil, a sociedade tende a deparar com profissionais ignóbeis, incapazes de suprir suas necessidades mais primordiais. É lamentável constatar que, em pleno século XXI, ainda existam crianças, adolescentes, ou mesmo jovens em idade escolar impossibilitados de frequentar as salas de aula. A educação, mais que um direito velado na Carta Magna, constitui uma necessidade de qualquer cidadão que pretende participar da vida moderna.

Por meio de discursos amplamente demagógicos, os representantes políticos do Estado, bem como das unidades federativas e dos municípios – com raríssimas e salutares exceções –, não se cansam de promover medidas eleitoreiras, visando à aglomeração de “indivíduos” em cubículos desprovidos de recursos didáticos, minimamente essenciais, para o desempenho da atividade educativa. Em muitos casos, verdadeiros “currais” disfarçados de escola funcionam como espaço gerador da (des)aprendizagem. Essa triste constatação explica, em parte, a falta de estímulo pelos estudos, sobretudo entre os jovens com menor poder aquisitivo, que acabam por sobrepor ao sonho da formação institucional digna o pesadelo do anonimato e da exclusão social.

Apesar de todos os percalços, ainda existem alunos que, felizmente, conseguem chegar aos anos conclusivos do período colegial. Outrora exemplos de formação e celeiros de intelectualidade, as instituições públicas de ensino – mas também algumas particulares – revestiram-se, nas últimas décadas, de tão acentuado abandono que o processo educativo deixou de ser uma prioridade e passou a ocupar lugar secundário ou, às vezes, terciário entre as famílias, principalmente as que se colocam nas classes economicamente menos privilegiadas. Os estudos, nesse sentido, passaram a não compensar: poucos conseguem manter ativa a centelha do conhecimento.

Reflexo instantâneo dos desmandos nas instâncias inferiores, a degradação do ensino superior no país é algo, no mínimo, preocupante. Faculdades e mais faculdades abertas sem a devida licença do Ministério da Educação ou, pior, com a autorização precoce concedida pelo órgão, ao mesmo tempo em que abrem as portas do mundo acadêmico para um número expressivo de alunos, acabam avalizando profissionais, na verdade, inaptos para os ofícios que desejam assumir. A distância, presenciais, telepresenciais, de maneira tradicional ou inovadora, as instituições se multiplicam, dia a dia, oferecendo ingresso imediato, sem concorrência, a quem possa pagar as já reduzidas mensalidades – a concessão do diploma é só uma questão de tempo; em muitos casos… bem pouco tempo.

O que, aparentemente, trata-se de um avanço, nada mais é do que um sinal de afrouxamento das justas exigências qualitativas. Nesse contexto, grandes e competentes redes de ensino prejudicam-se pela “enxurrada” de grupos mercenários que “pescam” alunos a todo custo. Com obstáculos minúsculos a transpor, dezenas de potenciais aprendizes de curandeiros tornam-se médicos, prontos para instaurarem o caos na já tumultuada área da saúde; frustrados edificadores de castelos de areia na infância aventuram-se no minucioso campo da construção civil, pondo em risco a vida de milhares de pessoas; ambiciosos do poder e das benesses ofertadas por cortes e tribunais do país não conseguem passar de míseros rábulas, seguidamente reprovados nos exames de ordem; enfim, centenas de indecisos, aventureiros na arte da docência, sem vocação, talento e paciência tentam, sem sucesso, revelar a seus alunos a arte de educar.

Nota-se que, embora o aumento no número de faculdades possibilite maior inserção no universo acadêmico, isso não endossa, necessariamente, crescimento intelectual da população. Na maioria dos casos, não há uma base educacional sólida: os recém-chegados à juventude e, de tal modo ao mundo universitário, ainda carregam os fardos de uma adolescência malresolvida.

A facilidade encontrada por quem quer cursar Direito, por exemplo, revela-se uma grande vilã: salas superlotadas de futuros advogados que não conseguem deixar para trás o estigma de péssimos redatores e frágeis argumentadores. Jovens que ouviram dos pais e de outras vozes sociais que cursar Direito é a grande realização do ente contemporâneo – é preciso passar em um concurso público o quanto antes! Dessa forma, cria-se a geração dos bacharéis sem vocação, eternos perseguidores da aprovação nos consecutivos exames de ordem da OAB, concurseiros desesperados, em busca da estabilidade no serviço público. Não sabe essa turma “desorientada” que, se não atentar para as características da sociedade da informação, mais e mais exigente, seu destino será sempre o banco dos réus do conhecimento.

2 thoughts on “De bacharel a baixo réu!

  1. Jacymara disse:

    Texto muito conveniente e retrata uma realidade preocupante.

  2. Elizabete Tavares disse:

    o resultado do ideb reforça essa teoria.

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