Ter de fazer ou ter que fazer?

“Sempre usei o verbo ‘ter’, quando necessário, seguido de ‘que’, como por exemplo em ‘tenho que escrever um e-mail’, e nunca tive problemas com isso. Entretanto, comecei a reparar que muitas pessoas utilizam o ‘de’ no lugar do ‘que’, ficando ‘tenho de escrever um e-mail’. Existe uma forma errada e outra certa ou ambas são aceitáveis? Seria uma questão de regionalismo, já que moro em Porto Alegre e a maioria das pessoas aqui usam o ‘que’?” (Bruno Grisci)

Não existe uma forma mais correta ou sequer preferencial entre “ter que” e “ter de”. Trata-se de duas opções à disposição do falante, que provavelmente estará sujeito (quase sempre está) a algum tipo de inclinação regional, familiar ou educacional por uma ou outra. Isso não muda o fato de que elas dizem rigorosamente a mesma coisa – ou seja, “estar obrigado a” – e que ambas contam com suficiente tradição de uso por bons autores para serem tratadas como iguais.

A título de curiosidade, vale ressaltar que nem sempre foi assim. Um olhar histórico sobre a expressão revela que “ter de” não é apenas anterior a “ter que”, mas já foi considerada pelos gramáticos a única forma culta, ao passo que a outra, derivada dela, era (mal)vista como “popular”. Até o século 17, ensina Said Ali, usava-se exclusivamente nesses casos a forma “haver de”, hoje antiquada e sobrevivente apenas em clichês como “hei de vencer”. Do século 18 em diante, completa ele, foi ganhando espaço o “ter de”.

Note-se que as observações acima, publicadas em livro por Ali em 1921, ainda nem consideravam a possibilidade do “ter que”. E bem poderiam fazer isso – para não dizer que teriam que fazer isso. Afinal, Machado de Assis, para ficar num exemplo suficiente, era um de seus adeptos e saiu-se com um “teve que concordar” num dos “Contos fluminenses”, como registra Francisco Fernandes em seu “Dicionário de verbos e regimes”. Rui Barbosa foi atrás.

O Houaiss explica que o “ter que” vem sendo usado “modernamente” em lugar de “ter de”, que ele chama de “castiço”. Tal uso cria uma irregularidade gramatical, o emprego do pronome relativo “que” numa função anômala – prepositiva para o Houaiss, conjuntiva na visão de Sousa Lima – que denunciaria uma contaminação do “ter de”. Mas isso é detalhe técnico.

De uma forma ou de outra, nem Bruno nem ninguém tem que falar “tem de”, assim como não tem de falar “tem que”. Eu tendo a preferir esta forma, mas tenho de reconhecer que, no combate à praga invencível da proliferação dos “ques”, a alternativa que o Houaiss chama de castiça é muitas vezes uma mão na roda.

RODRIGUES, Sérgio. Sobre Palavras: Consultório. Em veja.abril.com.br   Acesso em 12/01/12.

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