Você consegue falar “errado”?

Cada dia mais recorrentes, as discussões e publicações sobre a importância de falar “certo” ganham espaço em páginas de jornais e revistas de circulação nacional, com amplo impacto na opinião pública. Artigos e mais artigos procuram, implícita ou explicitamente, convencer os leitores de que eles não falam como “deveriam” e, por isso, não devem se expressar como de costume. Nesse sentido, convencidas de possuírem forças extralinguísticas, pequenas legiões de pseudogramáticos cumulam os espaços abertos na grande mídia, no intuito de eternizarem velhos conceitos da aristocracia da palavra. Trata-se, na verdade, de uma tentativa forjada de manter cativos todos aqueles que, desprovidos de oportunidades, não encontram forças para reagir à opressão e ao patológico preconceito linguístico.

A reflexão sobre aspectos inerentes à linguagem humana não constitui um atributo exclusivo dos estudos contemporâneos; basta observar a antiguidade clássica grega e perceber o interesse daqueles pensadores pelo idioma que falavam. Vários filósofos estudaram, por exemplo, a relação existente entre as coisas e os nomes atribuídos a elas (conhecido como fenômeno da arbitrariedade). Aristóteles foi um dos primeiros a explorar a filosofia da linguagem e discutir a constituição da gramática. Os Estoicos, sempre baseados na lógica, associavam linguagem à alma do homem; para eles, a palavra expressava cada coisa conforme sua natureza. Nessa época, havia, como se percebe, um interesse quase exclusivo na relação entre linguagem e filosofia. Anos mais tarde (séculos III e IV d.C.), a partir de movimentos surgidos em Alexandria (no Egito) e difundidos entre os romanos, despontaram os primeiros estudos formais, precursores da gramática normativa, essa que se estuda nos colégios e que ainda parece reger – soberanamente – nosso arcaico ensino de línguas.

No século XX, linguistas como Ferdinand Saussure, Mikhail Bakhtin, Émile Benveniste, Roman Jakobson e Noam Chomsky, enfim, conseguiram estabelecer o status de ciência a esse campo de estudos. Cada um com suas pontuações, eles e alguns outros abriram importante caminho para uma compreensão mais amplificada do fenômeno linguístico. No entanto, somente a partir da década de 1960, as relações entre língua e sociedade, de fato, passaram a conquistar um espaço privilegiado no universo acadêmico, com o nascimento da Sociolinguística. É essa área do conhecimento que vai, grosso modo, chamar a atenção para as variações ocorridas na língua através do tempo e das regiões geográficas, a partir das classes sociais ou das situações nas quais se inserem os falantes. Ademais, é a Sociolinguística quem focalizará as relações de poder existentes entre os membros de uma determinada língua – quem manda, quem obedece; quem fala “bonito”, quem fala “feio”.

Nesse âmbito, conceitos como “certo” ou “errado” deixam de ser realidades gramaticais estanques e predeterminadas e passam a protagonizar uma problemática bem mais salutar. Teriam sentido expressões como falar certo ou falar errado? Absolutamente! Ninguém fala certo ou errado, assim como ninguém cheira certo ou cheira errado, sorri certo ou sorri errado. Na verdade, todo cidadão, do mais rico ao mais humilde, do mais douto ao mais ignorante, consegue se comunicar por autorização permanente do idioma.

Assim, erro é tudo aquilo não permitido pela captação semântica da língua, isto é, que não pode ser compreendido. Frases como “o pessoal foram”, “a gente dissemos”, “nós vai” ou “assistimos o filme” não passam de desvios da chamada norma (o)culta do idioma – variação de prestígio representativa de uma pequena parcela da população que teve a sorte de frequentar escola regular e de lidar com a excludente educação formal.

Não se defende aqui, vale ressaltar, a balbúrdia linguística: cada uma fala como quer em qualquer situação. Não! Até porque tal prática tornaria muito complicada a interação entre os falantes. Em determinadas situações da vida, faz-se necessário o emprego do idioma convencional, predeterminado, visto como correto pela esfera social. Não por ser ele o melhor, o mais agradável aos ouvidos, mas por representar um determinado papel social:  preservar (socialmente) a imagem de quem fala.

É provado, pois, embora de maneira preliminar, que ninguém fala errado, sob pena de não ser compreendido. Sentenças como “Menino o dela faca de se lhe no quer” jamais estariam na boca de qualquer falante de português, por mais analfabeto que se apresente. Desse modo, falas estigmatizadas como as do ex-presidente Lula, de alguns jogadores de futebol ou de quaisquer outros falantes advindos de classes sociais economicamente desfavorecidas constituem também, com dezenas de formas peculiares de expressão, um recorte linguístico válido para a língua, ainda que inválido para a gramática formal. Dessa maneira, percebe-se que estabelecer uma variante “padrão” para a fala – inatingível por natureza – implica retornar ao início de toda esta reflexão e se conformar com as estruturas mais anacrônicas possíveis.

Prof. Eduardo Sampaio (Texto publicado na 3ª edição da revista Clipping)

16 thoughts on “Você consegue falar “errado”?

  1. greice disse:

    Verdade, as variedades linguísticas não podem ser vistas como erros, até porque cada região tem a sua, e devem sim ser respeitadas.Sou mineira,e também estudei em escola pública,então imaginam que situação.Pior é que estou estudando pedagogia, e me preocupo muito pois falo muito errado,e agora tento policiar minhas palavras,mas está complicado.Sou muito comunicativa ,então quando termino de conversar ,percebo que falei as palavras,andano,nadano,oce vai lá …nossa fico muito triste,tento mudar, mas não está nada fácil.

  2. Breno Tenório disse:

    Excelente reflexão! A miscigenação de formas linguisticas presente no mundo e principalmente em nosso país, precisa de fato ser vista como natural e parte da nossa cultura.
    Parabéns Prof. Eduardo Sanpaio.

  3. Laryssa Ferreira disse:

    Muito bom! Concordo plenamente com o texto. Independentemente da forma como um cidadão usa o português, mais válida é a compreensão,lembrando sempre da adequação dele de acordo com a situação apresentada. Muito bom mesmo professor!

  4. karyne disse:

    Ótima visão, concordo com a ideia do texto, as variedades linguísticas dependendo da situação não podem ser vistas como erros,e quando se trata do preconceito relacionado à língua, especificamente falada, é muito comum principalmente pelos diferentes níveis sociais, e cometidos por diversas pessoas, em meu ponto de vista é um ato de ignorância, claro que na escrita deve-se seguir a norma culta da gramática, porém na língua falada não têm problemas as variações, até porque o objetivo da comunicação é a compreensão do que se profere.

    Muito bom professor,Parabéns!

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