Trocando as lentes: novos horizontes para a juventude

Na condição de partícipe do galgar gradativo do tempo, o homem nem sempre percebe as inevitáveis transformações nos costumes e comportamentos que regem a sociedade. Para muitos, a passagem das eras representa, apenas, um atributo natural da vida, a ser acolhido sem polêmicas ou grandes reflexões; há, no entanto, quem enxergue o transladar dos anos por outros prismas e se empenhe na consolidação de posturas diferenciadas da maioria. Nesse paradoxal contexto, dá-se a formação de uma juventude completamente heterogênea e capaz de protagonizar ações não somente questionáveis, sobretudo do ponto de vista comportamental, mas também questionadoras, instigantes e, em diversas situações, revolucionárias. Se há os que, em tentativa geralmente frustrada de autoafirmação, deturpam virtudes estruturadoras da moral social, há também quem as resguarde e propague, dando vazão a preceitos éticos indispensáveis a qualquer povo.

Viver cada instante sem se preocupar com o porvir denota, a princípio, atitude de relaxamento diante das confusões do dia a dia. No período árcade da literatura brasileira (século XVIII), por exemplo, exaltava-se um estilo de vida semelhante. Naquela época, embora ciente do passar dos tempos, importava gozar o momento presente (carpe diem) em lugares tranquilos; pregava-se uma vida mediana e equilibrada (aurea mediocritas), longe das confusões do mundo urbano (fugere urbem). Para os árcades, mais interessante que o respeito à hierarquia social – então baseada principalmente na nobreza hereditária – era a naturalidade de um homem fiel às suas crenças íntimas. Havia, portanto, a valorização de ideais e pensamentos que levassem cada um a conhecer-se melhor. Para isso, os poetas da Arcádia precisavam “combater”, por meio de reflexões muito mais imanentes, o fortíssimo pensamento barroco, calcado na necessidade de buscar o transcendente e de revelar a fugacidade da vida.

Dois séculos mais tarde, um grupo de jovens artistas encabeça uma nova era no pensamento literário: surge o Modernismo. Nessa escola, muito mais que procurar autoconhecimento, escritores, pintores, músicos, escultores e outros artistas preocupavam-se com a falta de valores então imperante no seio social. Assim como no movimento árcade, havia ideais na mente e no coração dos jovens modernistas. Diante dos horrores de uma sociedade em guerra, a arte assumia seu papel denunciador, ao questionar comportamentos e levantar a bandeira dos excluídos. Certamente, a juventude dessa época não se deixava acovardar pelas conjunturas desfavoráveis; pelo contrário, possuía ímpeto, gana, valendo-se do conhecimento para construir novos horizontes.

No contexto do mundo “pós-moderno”, parecem adormecidos os gritos por liberdade, transformação e justiça. A sede de descobertas, comum a gerações passadas, esconde-se por trás de comportamentos libertinos e incoerentes, que pairam sobre a juventude do século XXI. A impressão é de que falta atitude a um grupo completamente desestimulado pela escassez de bons exemplos, bem como pela influência de um cenário político conturbado e desacreditado. Em vários casos, ressalte-se a ausência da instituição familiar, o que explica a inclinação de boa parte da juventude para a inércia que a comanda. Todavia, nem sempre o que explica de fato justifica certas posturas. Quantos passaram por situações completamente desfavoráveis e conseguiram edificar novos quadros? Muitos heróis. Isso mesmo, jovens heróis! Os grandes centros urbanos abrigam, ainda hoje, vários deles; outrora sofridos e discriminados nos pequenos interiores e periferias, conseguiram alcançar méritos na truculenta sociedade da informação. Para isso, abraçaram, com afinco, as mínimas oportunidades que tiveram.

Em cada período da humanidade, é possível encontrar jovens relapsos, sem objetivos ou desprovidos do espírito desbravador, próprio da idade. No entanto, são os vencedores que devem servir como paradigma: aqueles que souberam enxergar saídas para crises aparentemente insuperáveis. São esses que edificam a centelha da esperança para muitos desacreditados, entregues a uma vida distanciada da ética e inimiga dos preceitos morais. É hora de a juventude mudar o foco, substituir as lentes embaçadas e voltar a compor um cenário de dignidade para ela mesma. Somente assim passará de questionada a questionadora, de paciente a agente, de ofuscada a reluzente.

Prof. Eduardo Sampaio

2 thoughts on “Trocando as lentes: novos horizontes para a juventude

  1. Carol disse:

    Que belo texto!Realmente a juventude atual está num contexto alienador.Mas,nada como o conhecimento para mudar.
    Passando também para parabenizar pelo site.Ficou muito bom.Só agradecer pelo conhecimento que o senhor proporciona.
    Deus continue sempre iluminando essa sua mente maravilhosa.

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