De velas a vento: o educador, a fé e o conhecimento.

Antigos desbravadores, que deixavam suas pátrias em busca de espaços apenas imagináveis em outros continentes, não podiam sucumbir, com suas expectativas e sonhos de pioneirismo, ante o medo e a angústia dos imprevistos. Os cristãos primitivos não se davam o direito de acovardarem-se, frente ao “indomável” Império Romano, tampouco de abandonarem a fé, dados os constantes escândalos presentes na Igreja ao longo dos anos. Como eles, também os primeiros educadores a pisarem a Ilha de Vera Cruz  depararam com dificuldades próprias de seu tempo, mas souberam superá- las com maestria. Mesmo enfrentando sérios obstáculos, todos se permitiram impulsionar pelo espírito de bravura, comum aos fortes.

Se em pleno despontar da modernidade os mares ainda guardam segredos e perigos, avalie-se o tormento que afligia a mente daqueles que, em tempos de ínfimos recursos náuticos, ousavam lançar suas esperanças no imenso e desconhecido turbilhão de ondas com o qual  deparavam. Certamente, não eram apenas ares naturais os únicos impulsionadores das velas de suas vetustas embarcações; muito além do terceiro elemento, havia uma força propulsora que habitava os sonhos de cada navegante.

Não se contentando em receber informações por outros, partiam, eles mesmos, em busca do novo, apesar de conscientes da enorme probabilidade do fracasso. Para muitos, ardis exploradores, “cupins da colonização”, homens desprovidos de sentimentos, que buscavam, a todo custo, extrair das terras descobertas todas as suas preciosidades; para outros, guerreiros destemidos prontos para avançarem com suas naus e reservarem na história um lugar de prestígio. Dúvida não há, porém, de que todos eles, sendo heróis ou vilões, tiveram que deixar a cômoda posição de vela para assumirem o posto de vento – de soprados a sopradores.

Nos primeiros quatro séculos do Cristianismo, uma legião de mártires não parecia se intimidar pelas feras à solta em arenas repletas. Em meio aos tortuosos espetáculos de oposição à Mater Eclesia, nem os déspotas eufóricos nem o povo pagão e alucinado daquele tempo representavam entraves intransponíveis para os homens de fé. Para o enfrentamento daquela dura realidade, não contavam apenas com forças pessoais – um Vento suave e abrasador, vindo do alto, os envolvia. Desde o chamado protomártir Estêvão, primeiro cristão a ser apedrejado por testemunhar sua fé (cf. At 8), até os mártires dos séculos seguintes, todos se revestiram de uma armadura imperecível, passaporte definitivo para a eterna glória.

No contexto educacional, os rumos tomados também necessitaram de impulsos que fossem além da inspiração racional. Assim como o nascimento de uma criança não é, para seus pais, um fato meramente humano, mas transcende esse plano e margeia o divino, a função docente, percebam ou não aqueles que a exercem, só é saciada e encontra plenitude quando lança suas redes para águas mais profundas.

Desde a antiguidade mais remota, a noção de educador mistura-se à de pai, aquele que conduz às luzes do conhecimento. O pedagogo (do grego paidós,  criança + agogé, condução) é, por excelência, esse guia. Nesse sentido, o condutor é também o formador, o auxiliador e o primeiro advogado. A formação da moral e da personalidade do educando, bem como a geração de suas primeiras linhas de raciocínio, exigem um paradigma irretocável. Sem dúvida, pais e mestres devem gerar  esse modelo.

É verdade que a falta de incentivo dos governos e o descrédito ofertado à educação por grande parcela da sociedade brasileira, paulatinamente, corroem o primordial revestimento da instituição escolar. Mas, sinceramente, o inimigo a ser vencido nesse certame é muito mais sorrateiro e infame que o desdém dos poderes públicos ou a inércia do conjunto social.

Inimiga contumaz do progresso e vilã obstinada do desenvolvimento artístico e científico, a preguiça intelectual tem sido, nos últimos anos, a pedra no meio do caminho do processo educativo. Professores, em diversos casos sem vocação, colocam em xeque as fascinantes descobertas do universo da escola. Pior, além de não buscarem aprimoramentos teóricos e práticos formalizados em suas áreas de conhecimento, ainda descartam, com frieza e nescilidade frenéticas, a reflexão espiritual, bloqueando-se inteiramente ao Espírito de Sabedoria que vem do Alto.

Em um de seus mais conhecidos poemas, o antológico escritor Fernando Pessoa interroga: Olá, guardador de rebanhos, aí à beira da estrada, que te diz o vento que passa? É, pois, com essa breve reflexão que se procura dar desfecho a este escrito. Como maestro do universo escolar, cabe ao educador a primazia da escuta. Mais que alçar velas e esperar o movimento lento e natural da evolução humana, faz-se necessário unir-se à intrépida ventania que parte de Deus a orientar os caminhos do homem sobre a Terra.

É a ti, educador, verdadeiro guardador de rebanhos e habitante-mor das instâncias educativas, que o Vento fala: Duc in altum – faze-te ao largo! É essa a ordem. Abandona a mediocridade de outrora e lança tuas redes para águas mais profundas. Bebe da fonte cristalina que sacia toda sede, sem medo de arriscar. Assim, vento serás em tua nova docência!

Prof. Eduardo Sampaio (texto de encerramento do V Seminário Damas de Educação, realizado em Maceió – AL, em setembro de 2007).

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