Alexandre Nardoni: pai de Isabella?

Sem sombra de dúvidas, abril de 2008 ficará na história do Brasil como o mês do caso Isabella Nardoni. A menina atirada da janela de um quarto, no sexto andar do edifício London, na capital paulista, transformou-se em uma espécie de “celebridade drástica”. Um amontoado de fios, câmeras e unidades móveis de transmissão, poucas vezes visto no país, erigiu-se em torno da delegacia responsável pela investigação.

Por meio de uma cobertura praticamente ininterrupta, diversos órgãos de imprensa enxergaram, na novela em que se transformou a tragédia, uma oportunidade de triplicar os índices de audiência. Sem voz, sem espaço, sem vida, a imagem da pequenina Isabella figura em quase todos os veículos de comunicação, como símbolo de uma infância interrompida, segundo fortíssimos e precisos indícios, pela ação criminosa do próprio “pai” e da madrasta. A se confirmar, em definitivo, o óbvio, ficará claro que Alexandre Nardoni nunca foi, de fato, pai da inocente vítima. E defender essa tese não implica tirar dele um direito – o da paternidade biológica –, mas comprovar que ser pai exige requisitos essenciais, dos quais Alexandre (“o pequeno”) não lança mão.

Por ter acontecido na maior metrópole do país, onde estão locados os mais importantes veículos de comunicação, o crime do London ganhou uma repercussão surpreendente para um episódio, até certo ponto, e infelizmente, comum nos grandes centros urbanos: o brutal assassinato de uma criança. A pesquisa CNT/Sensus divulgada em 28/04/08 apontou que 98,2% da população brasileira tinha, à época, conhecimento do assassinato de Isabella, ocorrido no final de março de 2008. Apenas 1,2% afirmou desconhecer o episódio, contra 0,7% que não soube ou não quis responder. Segundo Ricardo Guedes, pesquisador do Instituto Sensus, esse foi o maior índice de conhecimento sobre algum assunto já registrado na série de pesquisas, iniciada em 1998.

Diferente, contudo, da cobertura irresponsável no emblemático caso da Escola Base (1994), no qual os donos da escolinha paulista foram erroneamente acusados – por pais de alunos – de abusarem sexualmente de algumas crianças, desta vez a imprensa se deteve, em sua maioria, às informações homeopaticamente liberadas pela polícia. Mesmo os programas mais sensacionalistas não ousaram apontar, com veemência, os culpados, apesar da inconteste quantidade de provas contra o casal indiciado, fato inexistente na época da Escola Base. No episódio de 1994, a declaração oficial de inocência não restituiu ao casal a dignidade maculada pela desonra pública e pelos desatinos sofridos na prisão. A vida daqueles ex-empresários da educação nunca mais seria a mesma. Bem pior – se é que isso é possível – apresenta-se o destino do casal Nardoni. Contra eles, pesa todo um conjunto cabal de provas, responsável tanto pelo convencimento dos investigadores, quanto da maior parte da opinião pública brasileira.

A culpa do estagiário de direito dos Nardonis e de sua maquiavélica esposa revela-se, pois, bastante evidente. Nesse sentido, inocentá-los parece tão fácil quanto trazer Isabella de volta. O que se pretende questionar, na verdade, com esta reflexão, é a paternidade desse homem de semblante frio e de comportamento intrigante. Alexandre prefigura o típico pai imanente, que não nutre pela filha concretos sinais de afeto. A criança, segundo comentários amplamente divulgados, foi concebida, a partir de um relacionamento prematuro, como acontece com tantas outras mundo afora. Fruto de um “acaso”, Isabella não teve a sorte de possuir um pai verdadeiro, transcendente, capaz de defendê-la e de se doar por ela; pelo contrário, teve a infelicidade de conviver com um homem que a via como um empecilho, um fardo a ser lançado ao vento em direção ao cinzento jardim da morte. Como Alexandre, há vários outros “pais de fachada”, com desejo contido de arrancar da vida quem represente obstáculo às suas nefastas pretensões.

Assim como na obra A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, a personagem vitimada nesse triste caso transformou-se em alvo de todos os holofotes, por um instante trágico, no qual a vida encontrou seu ocaso. Lá, Macabéa é atropelada pelo implacável contexto social, todo feito contra ela; à nordestina, nega-se o direito de pensar e ser crítica. Aqui, Isabella é aniquilada por quem deveria servir como escudo e fortaleza; à paulistinha foi negado o direito de ter um pai. Resta o consolo de saber que um Pai verdadeiro a acolheu em seus braços, como acolhe a tantos abandonados pela sorte.

Não obstante a dor e a tristeza dos parentes, a comoção nacional ou mesmo a memória da cândida infante, vale ressaltar que a nação apresenta situações bem mais gritantes, que acabaram caindo no anonimato e “engrossando o caldo” da impunidade: dezenas de jovens assassinados diariamente, vítimas impotentes do tráfico de drogas, sem a mínima investigação policial; políticos corruptos, em intermináveis desvios de verbas públicas, gozando da vergonhosa imunidade conquistada a troco de compra de votos; ou ainda a destruição progressiva dos patamares estruturadores da instituição familiar. Esses terríveis fatores de desagregação social são postos de lado, em detrimento da importância novelesca atribuída a falsas epopeias nas quais se transformam casos como o de Isabella. A sociedade também necessita urgentemente de um pai, sob pena de ser lançada no vazio da ignorância!

Prof. Eduardo Sampaio   (texto escrito em maio de 2008).

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