A sala do(s) culpado(s)

O antigo sonho humano de alcançar novos horizontes, transpor barreiras e vislumbrar conquistas constitui uma temática comum e que, até certo ponto, não pode deixar de fazer parte da sociedade moderna. Nesse sentido, é imanente à natureza humana o desejo de se superar e de descobrir, a cada dia, caminhos diferentes para que a vida não se torne monótona e enfadonha. No entanto, para promover esse constante reencontro com a capacidade de ir além, revela-se imprescindível o reconhecimento de fraquezas e limitações; muitas vezes, é preciso descer para tomar o rumo da subida. E é justo aí que reside o xis da questão: a poucos parece interessante admitir defeitos ou aceitar fracassos.

Os louros da vitória costumam encantar de tal forma que, geralmente, impedem-nos de discernir a efêmera e momentânea felicidade por conquistas indevidas da perene alegria dos fins meritórios. As pseudoconquistas prefiguram, quase sempre, as futuras desilusões, conferindo-nos títulos completamente desprezíveis; enquanto as verdadeiras, advindas do esforço, da digna labuta, frutos de uma vida honrada e alicerçada sobre a inconteste consciência, representam a mais concreta esperança de um futuro sem traumas.

Vale trazer aqui, como fator de exemplificação, a figura de Paulo Honório, protagonista do romance São Bernardo, escrito pelo alagoano Graciliano Ramos. Nessa obra (considerada um clássico das letras nacionais), o personagem em foco, durante boa parte da vida um trabalhador braçal, destaca-se por conseguir “comprar” a Fazenda São Bernardo do antigo herdeiro Luís Padilha. A conquista, nesse caso, se dá por meio de uma ação ilícita: a agiotagem. Honório empresta um determinado valor a Padilha, que não consegue restabelecê-lo dentro do prazo acordado.  O ex-trabalhador da fazenda vê aí, então, a chance de “mudar de vida” – pressiona o filho do antigo patrão até conseguir, por um terço do valor real, a posse da terra. Consegue o que queria, é verdade, mas, ao mesmo tempo, prende-se a um futuro desesperado e atormentado pelas agruras da vida até o fim de seus dias. Ao fim do romance, Honório percebe-se arrasado e parece admitir que errou, mas, no fundo, atribui a culpa de sua insensatez à própria vida – a culpa, diz ele, é dessa vida agreste, que me deu uma alma agreste.

O costume de não se pronunciar culpado ou de atribuir a posse negativa a outrem parece uma atitude peculiar a cada um de nós. Assim como o narrador de São Bernardo, em uma saída com ares deterministas, atribui à dura vida que teve a culpa por seus comportamentos pífios, também nós não perdemos a oportunidade de transferir a responsabilidade de nossos delitos a outros portos. Basta uma oportunidade, e logo enviamos a culpa para outro hemisfério.

Na recente tragédia da aviação civil brasileira, envolvendo um Airbus A320 da TAM e 199 mortos, na capital paulista, o empurra-empurra de responsabilidades é incrível. Em meio a um drástico acidente, ninguém, de fato, assume a culpa: a empresa aérea (falha do piloto), os controladores de voo, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), a INFRAERO, o fabricante do avião, enfim, ninguém ousa chamar pra si a responsabilidade.

O mais preocupante é que essa fuga não se restringe apenas a casos de grande impacto social, como o acidente supracitado, ou à ficção literária, mas extrapolam esses níveis e chegam até cada um de nós. Indubitavelmente, uma hora ou outra, alguma situação cobrará a coragem do enfrentamento, a disposição para afastar o espírito omisso e assumir intrepidamente a culpa. Nessas situações, a aparente dificuldade e o constrangimento iniciais poderão significar o mais importante passo para o recomeço.

De modo insistente e, em algumas situações, irreversível, reluta-se em reconhecer o deslize, dificilmente dá-se o braço a torcer. Esquece-se, contudo, de que não há felicidade ou mérito em se chegar ao topo quando se “está” nele o tempo inteiro. Às vezes, é interessante descer e retomar a subida, apagar as luzes da prepotência para conceder o foco à verdade.

É desse retroceder para avançar, deveras paradoxal, que cada um precisa se apossar. Chega de destinar as responsabilidades a quem não as tem ou não as merece. É tempo de romper os grilhões da covardia e desfazer as correntes da mediocridade comportamental. É hora de desatar os nós, descer dos pedestais e reconhecer-se humanos (isto é, que procede do húmus: terra, chão, pó). As árvores com as maiores sombras são também as que possuem as mais profundas raízes, diz um famoso provérbio. De igual modo, não há como conseguir plenitude se não houver o reconhecimento da natureza primordial.

Sistemas políticos, governos, líderes religiosos, amigos, colegas,  conhecidos, desconhecidos, parentes distantes, próximos, mais próximos, todos costumam figurar entre os alvos de descargas culposas. Um dia, porém, cada um de nós, para desfrutar a vera liberdade, terá que adentrar a grande e infalível sala. Nela, encontrar-se-á, sem dúvida, um conjunto de espelhos a revelar os maiores culpados por tudo o que se vive, os grandes responsáveis pela maioria das ações ilícitas das quais se participa. Só aí haverá percepção de que as imagens refletidas nada mais são do que uma única e repetida: a de quem se vê!

Prof. Eduardo Sampaio

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