Discursos: Direto, Indireto e Indireto Livre

Enunciação e reprodução de enunciações

Comparando as seguintes frases:

      “A vida é luta constante”
“Dizem os homens experientes que a vida é luta constante”

notamos que, em ambas, é emitido um mesmo conceito sobre a vida.

Mas, enquanto o autor da primeira frase enuncia tal conceito como tendo sido por ele próprio formulado, o autor da segunda o reproduz como tendo sido formulado por outrem.

Estrutura de reprodução de enunciações

Para dar-nos a conhecer os pensamentos e as palavras de personagens reais ou fictícias, os locutores e os escritores dispõem de três moldes linguísticos diversos, conhecidos pelos nomes de: discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre.

I. Discurso direto

Examinando este passo do conto Guaxinim do banhado, de Mário de Andrade:

“O Guaxinim está inquieto, mexe dum lado pra outro. Eis que suspira lá na língua dele – “Chente! que vida dura esta de guaxinim do banhado!…”

verificamos que o narrador, após introduzir o personagem, o guaxinim, deixou-o expressar-se “Lá na língua dele”, reproduzindo-lhe a fala tal como ele a teria organizado e emitido.

A essa forma de expressão, em que o personagem é chamado a apresentar as suas próprias palavras, denominamos discurso direto.

Características do discurso direto

a) No plano formal, um enunciado em discurso direto é marcado, geralmente, pela presença de verbos do tipo dizer, afirmar, ponderar, sugerir, perguntar, indagar ou expressões sinônimas, que podem introduzi-lo, arrematá-lo ou nele se inserir:

“E Alexandre abriu a torneira:

— Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram.” (Graciliano Ramos)

“Felizmente, ninguém tinha morrido — diziam em redor.” (Cecília Meirelles)

“Os que não têm filhos são órfãos às avessas”, escreveu Machado de Assis, creio que no Memorial de Aires. (A.F. Schmidt)

Quando falta um desses verbos dicendi, cabe ao contexto e a recursos gráficos — tais como os dois pontos, as aspas, o travessão e a mudança de linha — a função de indicar a fala do personagem. É o que observamos neste passo:

“Ao aviso da criada, a família tinha chegado à janela. Não avistaram o menino:

— Joãozinho!

Nada. Será que ele voou mesmo?”

b) No plano expressivo, a força da narração em discurso direto provém essencialmente de sua capacidade de atualizar o episódio, fazendo emergir da situação o personagem, tornando-o vivo para o ouvinte, à maneira de uma cena teatral, em que o narrador desempenha a mera função de indicador das falas.

Daí ser essa forma de relatar preferencialmente adotada nos atos diários de comunicação e nos estilos literários narrativos em que os autores pretendem representar diante dos que os leem “a comédia humana, com a maior naturalidade possível”. (E. Zola)

II. Discurso indireto

Tomemos como exemplo esta frase de Machado de Assis:

“Elisiário confessou que estava com sono.”

Ao contrário do que observamos nos enunciados em discurso direto, o narrador incorpora aqui, ao seu próprio falar, uma informação do personagem (Elisiário), contentando-se em transmitir ao leitor o seu conteúdo, sem nenhum respeito à forma linguística que teria sido realmente empregada.

Esse processo de reproduzir enunciados chama-se discurso indireto.

Características do discurso indireto

a) No plano formal verifica-se que, introduzidas também por um verbo declarativo (dizer, afirmar, ponderar, confessar, responder, etc), as falas dos personagens se contêm, no entanto, numa oração subordinada substantiva, de regra desenvolvida:

“O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doudos no mundo e menos ainda o inexplicável de alguns casos.”

Nestas orações, como vimos, pode ocorrer a elipse da conjunção integrante:

“Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama, e, pelo cálculo aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-la à fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.”(Lima Barreto)

A conjunção integrante falta, naturalmente, quando, numa construção em discurso indireto, a subordinada substantiva assume a forma reduzida:

“Um dos vizinhos disse-lhe serem as autoridades do Cachoeiro.”(Graça Aranha)

 b) No plano expressivo assinala-se, em primeiro lugar, que o emprego do discurso indireto pressupõe um tipo de relato de caráter predominantemente informativo e intelectivo, sem a feição teatral e atualizadora do discurso direto. O narrador passa a subordinar a si o personagem, com retirar-lhe a forma própria da expressão. Mas não se conclua daí que o discurso indireto seja uma construção estilística pobre. É, na verdade, do emprego sabiamente dosado de um e de outro tipo de discurso que os bons escritores extraem da narrativa os mais variados efeitos artísticos, em consonância com intenções expressivas que só a análise em profundidade de uma dada obra pode revelar.

Transposição do discurso direto para o indireto

Do confronto destas duas frases:

“– Guardo tudo o que meu neto escreve — dizia ela.” (A.F. Schmidt)

“Ela dizia que guardava tudo o que o seu neto escrevia.”

verifica-se que, ao passar-se de um tipo de relato para outro, certos elementos do enunciado se modificam, por acomodação ao novo molde sintático.

a)Discurso direto enunciado 1ª ou 2ª pessoa.

Exemplo: “– Devia bastar, disse ela; eu não me atrevo a pedir mais.” (M. de Assis)

Discurso indireto: enunciado em 3ª pessoa:

“Ela disse que deveria bastar, que ela não se atrevia a pedir mais”

b)Discurso direto: verbo enunciado no presente:

“– O major é um filósofo, disse ele com malícia.” (Lima Barreto)

Discurso indireto: verbo enunciado no imperfeito:

“Disse ele com malícia que o major era um filósofo.”

c) Discurso direto: verbo enunciado no pretérito perfeito:

“– Caubi voltou, disse o guerreiro Tabajara.” (José de Alencar)

Discurso indireto: verbo enunciado no pretérito mais-que-perfeito:

“O guerreiro Tabajara disse que Caubi tinha voltado.”

d) Discurso direto: verbo enunciado no futuro do presente:

“– Virão buscar você muito cedo? — perguntei.”(A.F. Schmidt)

Discurso indireto: verbo enunciado no futuro do pretérito:

“Perguntei se viriam buscar você muito cedo.”

e) Discurso direto: verbo no modo imperativo:

“– Segue a dança!, gritaram em volta. (A. Azevedo)

Discurso indireto: verbo no modo subjuntivo:

“Gritaram em volta que seguisse a dança.”

f) Discurso direto: enunciado justaposto:

“O dia vai ficar triste, disse Caubi.”

Discurso indireto: enunciado subordinado, geralmente introduzido pela integrante que:

“Disse Caubi que o dia ia ficar triste.”

g) Discurso direto:: enunciado em forma interrogativa direta:

“Pergunto — É verdade que a Aldinha do Juca está uma moça encantadora?” (Guimarães Rosa)

Discurso indireto: enunciado em forma interrogativa indireta:

“Pergunto se é verdade que a Aldinha do Juca está uma moça encantadora.”

h) Discurso direto: pronome demonstrativo de 1ª pessoa (este, esta, isto) ou de 2ª pessoa (esse, essa, isso).

“Isto vai depressa, disse Lopo Alves.”(Machado de Assis)

Discurso indireto: pronome demonstrativo de 3ª pessoa (aquele, aquela, aquilo).

“Lopo Alves disse que aquilo ia depressa.”

i) Discurso direto: advérbio de lugar aqui:

“E depois de torcer nas mãos a bolsa, meteu-a de novo na gaveta, concluindo:

— Aqui, não está o que procuro.” (Afonso Arinos)

Discurso indireto: advérbio de lugar ali:

“E depois de torcer nas mãos a bolsa, meteu-a de novo na gaveta, concluindo que ali não estava o que procurava.”

III. Discurso indireto livre

Na moderna literatura narrativa, tem sido amplamente utilizado um terceiro processo de reprodução de enunciados, resultante da conciliação dos dois anteriormente descritos. É o chamado discurso indireto livre, forma de expressão que, ao invés de apresentar o personagem em sua voz própria (discurso direto), ou de informar objetivamente o leitor sobre o que ele teria dito (discurso indireto), aproxima narrador e personagem, dando-nos a impressão de que passam a falar em uníssono.

Comparem-se estes exemplos:

“Que vontade de voar lhe veio agora! Correu outra vez com a respiração presa. Já nem podia mais. Estava desanimado. Que pena! Houve um momento em que esteve quase… quase!

Retirou as asas e estraçalhou-a. Só tinham beleza. Entretanto, qualquer urubu… que raiva…” (Ana Maria Machado)

“D. Aurora sacudiu a cabeça e afastou o juízo temerário. Para que estar catando defeitos no próximo? Eram todos irmãos. Irmãos.” (Graciliano Ramos)

“O matuto sentiu uma frialdade mortuária percorrendo-o ao longo da espinha.

Era uma urutu, a terrível urutu do sertão, para a qual a mezinha doméstica nem a dos campos possuíam salvação.

Perdido… completamente perdido…” ( H. de C. Ramos)

Características do discurso indireto livre

Do exame dos enunciados, comprova-se que o discurso indireto livre conserva toda a afetividade e a expressividade próprios do discurso direto, ao mesmo tempo que mantém as transposições de pronomes, verbos e advérbios típicos do discurso indireto. É, por conseguinte, um processo de reprodução de enunciados que combina as características dos dois anteriormente descritos.

a) No plano formal, verifica-se que o emprego do discurso indireto livre “pressupõe duas condições: a absoluta liberdade sintática do escritor (fator gramatical) e a sua completa adesão à vida do personagem (fator estético)” (Nicola Vita In: Cultura Neolatina).

Observe-se que essa absoluta liberdade sintática do escritor pode levar o leitor desatento a confundir as palavras ou manifestações dos locutores com a simples narração. Daí que, para a apreensão da fala do personagem nos trechos em discurso indireto livre, ganhe em importância o papel do contexto, já que a passagem do que seja relato por parte do narrador a enunciado real do locutor é, muitas vezes, extremamente sutil, tal como nos mostra o seguinte passo de Machado de Assis:

“Quincas Borba calou-se de exausto, e sentou-se ofegante. Rubião acudiu, levando-lhe água e pedindo que se deitasse para descansar; mas o enfermo após alguns minutos, respondeu que não era nada. Perdera o costume de fazer discursos é o que era.”

b) No plano expressivo, devem ser realçados alguns valores dessa construção híbrida:

1. Evitando, por um lado, o acúmulo de quês, ocorrente no discurso indireto, e, por outro lado, os cortes das oposições dialogadas peculiares ao discurso direto, o discurso indireto livre permite uma narrativa mais fluente, de ritmo e tom mais artisticamente elaborados;

2. O elo psíquico que se estabelece entre narrador e personagem nesse molde frásico torna-o o preferido dos escritores memorialistas, em suas páginas de monólogo interior;

3. Finalmente, cumpre ressaltar que o discurso indireto livre nem sempre aparece isolado em meio da narração. Sua “riqueza expressiva aumenta quando ele se relaciona, dentro do mesmo parágrafo, com os discursos direto e indireto puro”, pois o emprego conjunto faz que para o enunciado confluam, “numa soma total, as características de três estilos diferentes entre si”.

( Com base no texto de Celso Cunha in Gramática da Língua Portuguesa, 2ª edição, MEC-FENAME.)

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