002. Haiti: um país condenado à miséria

 Escravos haitianos constituíram primeira república negra da história.

Descoberta por Cristóvão Colombo em1492, ailha de São Domingo “entrou no mapa” em 1505, com a plantação da cana-de-açúcar, importada das ilhas canárias. Aportaram também os navios carregados de escravos da África Ocidental. Com o fim do potencial exploratório do ouro no território, os espanhóis partem rumos ao sul, deixando o território à mercê de piratas franceses. A França receberia a soberania da ilha por tratado, em 1697.

São Domingo entra então em seu período de maior prosperidade, com a exploração do açúcar. Com base no trabalho desumano de quase 500 mil negros, a colônia torna-se a mais rica do mundo.

Em 1789, os ecos dos ideais de igualdade, liberdade e fraternidade chegam à colônia, dando esperança aos escravos mais rebeldes – especialmente aqueles foragidos nas montanhas do interior, conhecidos como cimarróns, não só no Haiti, mas em outras ilhas do Caribe –, que começam a se rebelar contra seus senhores. Sua população é dez vezes maior que a de seus senhores. Em agosto de 1791, inicia-se a rebelião que, em 13 anos, tornaria o país independente, sob o comando do negro Toussaint Louverture, que joga com a rivalidade entre Espanha, França e Inglaterra, conquistando o domínio sobre todo o Haiti e botando para correr o temido exército de Napoleão Bonaparte.

Ao fim da Revolução, o recém-batizado Haiti está em ruínas e não tem mais o valor dos velhos tempos. Temendo a disseminação do ímpeto revolucionário, a França opta pela mais prática das soluções: joga o país no isolamento e no esquecimento. Não reconhece sua independência até 1804, quando é estabelecida a multa pelos danos causados à Metrópole. A outra República das Américas, os Estados Unidos, também não se interessa pelo comércio de produtos de base com a “ilhazinha dos pretos”. Desde então, o Haiti viveu às voltas com golpes, revoluções e revoltas.

No dia 28 de fevereiro de 2004, foi deposto o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide. Exilado, o ex-padre queixou-se de não saber para onde o avião da Força Aérea Norte-Americana o levava. Acusou americanos e franceses de sequestro e omissão. A acusação é plausível, visto que Aristide nunca havia estado na República Central Africana, país submetido a interesses militares e econômicos da França, para onde o ex-presidente foi levado à revelia.

Bangui, capital do país africano, é tida como a cidade mais violenta do mundo – tão violenta que, há dois anos, os Estados Unidos fecharam sua embaixada por lá. O exílio chamou a atenção da Comunidade Caribenha (CAPRICOM) e da União Africana, além da África do Sul, Panamá, Venezuela e países do Caribe, que pediram à ONU uma investigação séria sobre a saída de Aristide. Panamá e Venezuela chegaram a oferecer asilo político ao presidente.

A crise haitiana tem diversas faces; em sua maioria, não muito claras. Suas raízes estão entrelaçadas com a história revolucionária do país. Desde que assumiu o compromisso de pagar US$ 90 milhões à França, como indenização por sua independência, o Haiti sucumbiu em dívidas que nunca serão quitadas. Além disso, sofreu com o embargo promovido pelas potências colonialistas do Séc. XVIII, que temiam que o levante escravo levasse a revoltas em outras colônias.

Quando a ilha de São Domingos perdeu seu potencial econômico, os franceses a deixaram de lado, dando margem à atuação do imperialismo norte-americano. Sua ocupação (1915-34) trouxe à ilha bombardeios aéreos e uma instituição que marcaria o resto da história do país: o exército, criado pelo Congresso americano e dissolvido por Aristide em 95, sem nunca ter enfrentado um inimigo externo, foi responsável por repressão, massacres e golpes dentro do país. Principalmente durante os mais de 25 anos da ditadura sanguinária da família Duvalier.

Nessa época, Aristide era um padre da Teologia da Libertação que proclamava a preferência de Deus pelos pobres e enfrentava forte oposição da política americana de Ronald Reagan, que via aquela atividade mais como comunista do que cristã. Isso estava longe de ser o suficiente para barrar sua vitória nas primeiras eleições democráticas do país. Com 67% dos votos, foi declarado presidente no primeiro turno do pleito de 1990.

Fazer frente aos americanos nunca foi fácil. A primeira administração Bush investiu pesado no país, financiando o grupo paramilitar FRAPH, que ganharia projeção nacional na deposição do presidente Aristide, em setembro de 1991. Por três anos, grupos civil-militares governaram o país, num período que culminou com a morte e a fuga de centenas de milhares de haitianos.

A volta de Aristide aconteceu durante o governo Clinton, em 1994. Mas sete semanas depois, os republicanos tomaram conta do Congresso americano, bloqueando o suporte financeiro ao Haiti. Esse suporte havia sido aprovado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para o aprimoramento de infraestrutura básica, hospitais, escolas e estradas no Haiti.

De acordo com a lei internacional, a conta dos empréstimos deveria ser paga independentemente de onde o dinheiro fosse aplicado. De fato, os Estados Unidos nunca cortaram o financiamento ao Haiti; a questão é que não foi direcionado à infraestrutura, como requisitava o BID, mas ao financiamento de grupos militares e ditaduras: 40% do US$ 1,134 bilhão emprestado entraram no país durante as ditaduras Duvalier. Ou seja, o dinheiro não foi usado em prol da população, mas para oprimi-la. Em julho de 2003, o Haiti entregou 90% de suas reservas externas a Washington como pagamento de juros.

Se aplicados os mesmos juros que impedem que o Haiti pague sua dívida externa ao ressarcimento da multa que o país pagou à França após conseguir sua independência de forma revolucionária, a antiga Metrópole teria de devolver à colônia nada menos do que US$ 21.685.135.571,48. A proposta foi feita por Aristide e, obviamente, recebida com escárnio pelos franceses. É o absurdo que o povo haitiano tem de encarar desde sua independência: pagar em dinheiro o que seus ancestrais escravos pagaram com sangue.

Na administração Bush, velhos republicanos foram trazidos à tona para tratar das questões internacionais com a mesma truculência do passado. Para a América Latina, Bush priorizou diplomatas com passado pouco louvável e índices de reprovação calamitosos na Câmara americana, como o lobista da empresa armamentista Lockheed Martin, Otto Reich, encarregado de minar as bases de Hugo Chávez na Venezuela e Roger Noriega, antigo desafeto de Aristide.

Otto Reich tem feito um “belo” serviço: todos os antigos militares haitianos condenados à prisão perpétua por crimes contra a humanidade e chacinas nos períodos ditatoriais estão de volta às ruas. É o caso do antigo guarda presidencial dos Duvalier, Prosper Avril, que tem em seu currículo torturas e tratamentos indignos a políticos de oposição, professores e até a um médico comunitário. Maior responsável pela atual deposição de Aristide, Guy Philippe também é protegido dos norte-americanos, apesar da negação do Secretário de Estado Collin Powell: foi treinado por eles em uma base militar no Equador e traz entre seus maiores ídolos George W. Bush e o ex-ditador chileno Augusto Pinochet.

Antes do tremor de terra que praticamente devastou a capital Porto Príncipe e outras regiões do Haiti, primeira nação do continente a conseguir a independência, a população já sofria, portanto, com a falta de serviços básicos e com o subemprego.

A capital haitiana possui inúmeras favelas. Luz e água são serviços escassos. O comércio é quase todo informal e a segurança, dividida entre a polícia local e os militares da força de paz das Nações Unidas (ONU). É uma área de instabilidade permanente, como a reportagem constatou ao visitar o país antes que o terremoto fizesse o mundo volta seus olhos para essa nação formada majoritariamente por negros.

A agricultura do Haiti é baseada na produção de cana-de-açúcar, manga, milho e arroz. Mas a produtividade caiu muito. Depois da guerra civil, as plantações são praticamente de subsistência. Os rios não são perenes e só 0,5% da cobertura vegetal nativa resistiu às queimadas para a produção de carvão vegetal, principal fonte de energia para cozinhar alimentos no país. Os principais recursos naturais são o mármore e o calcário, cujas explorações estão estagnadas.

Segundo o Exército brasileiro, que comanda a Força de Paz da ONU desde2004, aluz chegava só a 20% das casas e a água encanada, a 30%. A expectativa de vida é de 53 anos, e o analfabetismo atinge 47% da população. Apesar do quadro desolador, os veteranos da missão brasileira diziam que a situação “melhorou um pouquinho”.

Nas áreas mais pobres da capital haitiana, era normal ver crianças em trajes escolares convivendo com outras seminuas. Em lugares como Cité Soleil, o último reduto das gangues que resistiu ao domínio dos militares brasileiros, o Ponto Forte, ocupado pelo Exército brasileiro no começo de 2007, ainda estava crivado de balas. No bairro paupérrimo, a pobreza extrema era uma realidade cotidiana. Os mercados públicos funcionavam em meio a valas de esgoto, onde se comercializa de tudo, desde alimentos até o carvão.

A realidade das famílias mais abastados economicamente era diferente. Elas moravam na parte alta da cidade e contavam com gerador próprio de energia, o que permitia que assistissem televisão, ouvissem música e tivessem geladeiras. Na parte baixa, próxima ao porto, a luz era artigo de luxo.

A sociedade haitiana é majoritariamente católica, cerca de dois terços, mas pratica o vudu, que mistura o catolicismo com religiões africanas. As línguas oficiais são o francês e o creóle, um dialeto que mescla o francês com línguas africanas e é falado pela maioria da população. A moeda local é o Gourde, mas o que realmente vale é o dólar americano.

No país de 27 milhões de quilômetros quadrados, pouco maior do que estado de Sergipe, vivem cerca de 9 milhões de pessoas. Desse total, as organizações internacionais calculam que pelo menos 50 mil tenham morrido durante o terremoto. É essa a nação, agora ainda mais pobre, que o Brasil, a França, os Estados Unidos e o Canadá, com a ajuda de outras economias, terão de ajudar a reconstruir nos próximos anos.

Texto construído a partir de fontes diversas da internet

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